Não são raros na história os casos em que grupos armados cometem atos de grande comoção para atrair maior atenção às suas causas, sejam elas quais forem. Notadamente, eventos esportivos acabam sendo “bons” alvos para tais grupos, pois propiciam ampla divulgação, além do fato de sensibilizarem mais, pela característica pacífica desses eventos e pela posição inocente e desprotegida de suas vítimas. Talvez o caso mais conhecido tenha ocorrido durante os Jogos Olímpicos de Munique em 1972, quando membros da delegação israelense foram feitos reféns, no interior da vila olímpica, pelo grupo terrorista palestino Setembro Negro, durante 34 horas. O saldo final da ação foi a morte de onze atletas israelenses, cinco terroristas, um policial alemão e o piloto do helicóptero que supostamente levaria o grupo para o Egito. No último dia 8 de janeiro, entretanto, um ataque a tiros contra o ônibus da delegação do Togo em Angola chocou e chamou a atenção da mídia internacional para um antigo movimento pela independência da província angolana de Cabinda. Uma facção da Frente de Libertação do Estado de Cabinda (FLEC) assumiu a responsabilidade pelo ataque contra a seleção togolesa, que estava na região para a Copa Africana de Nações e, após a tragédia, abandonou a competição.
Angola foi uma colônia portuguesa até 1975, ano em que o país ganhou sua independência. Porém, o processo não foi fácil, pois Portugal não se dobrou à política descolonizadora da França e da Grã-Bretanha vigente durante os anos 1960. Além da FLEC, a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), o Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) já atuavam em território angolano desde aquela época, e tornaram-se partidos políticos com a independência, mas deram início a uma guerra civil pelo controle do novo país que duraria até 2002. Trata-se, pois, de um grupo pequeno e fragmentado de insurgentes que nega o direito de Angola de governar a província de Cabinda e que exige a sua independência. É fundamental alertar que o Togo não possui relação alguma com o conflito. Cabinda é um enclave angolano localizado entre os territórios do Congo e da República Democrática do Congo e por este último separada do resto do território angolano. A FLEC vê o governo de Luanda como uma força de ocupação, da mesma forma como via os portugueses. Mas o fato atual é que Angola é um dos dois principais produtores de petróleo da África Subsaariana e grande parte do petróleo angolano vem de Cabinda.
Como Angola não conheceu a paz desde 1961 até 2002, primeiro em virtude da luta contra o domínio colonial português, depois como consequência da guerra civil que eclodiu em 1975 entre seus principais partidos, os anteriores movimentos de libertação, a FLEC aproveitou-se do caos existente para implementar suas ações guerrilheiras. A guerra civil causou grandes danos às instituições políticas e sociais do país. A ONU estima em 1,8 milhões o número de pessoas internamente deslocadas, mas há quem fale em 4 milhões. As condições de vida cotidiana em todo o país e especialmente na capital, Luanda, espelham o colapso das infraestruturas administrativas bem como de muitas instituições sociais. A escolha de Angola como sede da Copa Africana de Nações de 2010 foi, em meio a isso tudo, um momento de autoafirmação para uma geração inteira “acostumada” com o terror da guerra interna. Este mais recente ataque, entretanto, prova que a insurgência na província de Cabinda continua, com menor atividade após o fim da guerra civil é verdade, mas a agressão aos togoleses foi a maior atribuída à FLEC nos últimos anos.