Relações Internacionais

A Processo de Partilha da África

17/07/10

    
     Nestes últimos trinta dias, durante as transmissões dos jogos da Copa do Mundo, tentou-se dar ao público brasileiro a impressão de um continente africano unido em torno de um ideal. Galvão Bueno e companhia arriscaram, inúmeras vezes, dar um tom poético à descaracterização dada pelo colonizador europeu àquele continente ímpar, chamando-a de “Nova África”. O fim do regime segregacionista do apartheid, imposto por britânicos e holandeses, longe de ser meramente celebrado, deveria ver questionada a sua existência velada, não somente na África do Sul, mas em outros tantos cantos do planeta. Além da imposição do idioma, da cultura, da escravidão, entre outras atrocidades, o grande legado europeu naquele continente foi a chamada Partilha da África, estabelecida através do Congresso de Berlim de 1884/85, que, ao formar novos países às custas dos interesses da Europa, separou nações ou deixou no mesmo território povos nativos que não possuíam a menor afinidade.  

     A Partilha de África, também conhecida como a Corrida à África ou ainda Disputa pela África, foi a proliferação de reivindicações européias conflitantes ao território africano durante o período das relações internacionais compreendido entre a década de 1880 e a Primeira Guerra Mundial em 1914, chamado de neo-imperialismo, e que envolveu principalmente a França e Reino Unido, embora também participassem do conflito a Itália, Alemanha, Bélgica, Espanha, Portugal e, em menor intensidade, Estados Unidos, este último tendo participado da fundação da Libéria.

     A partir do momento no qual a África não podia mais fornecer escravos, o interesse das potências coloniais inclinou-se para a sua ocupação territorial. Tal fato deu-se basicamente por dois motivos. O primeiro deles é que aquelas potências ambicionavam explorar as riquezas minerais e agrícolas do continente, até então só parcialmente conhecidas. O segundo deveu-se à competição imperialista cada vez maior na Europa, especialmente após a celebração da unificação da Alemanha, ocorrida em 1871. Por vezes chegou-se a ocupar extensas regiões desérticas, como a França o fez no Saara, chamando a região de França Equatorial, apenas para não deixá-las para os inimigos. Antes da África ser dominada por funcionários metropolitanos, a região toda havia sido dividida entre várias companhias privadas que tinham concessões de exploração. Assim a Guiné estava entregue a uma companhia escravista francesa. O Congo, por sua vez, era privativo da Companhia para o Comércio e Indústria, fundada em 1889, que o dividia com a Companhia Anversoise, de 1892. O Alto Níger era controlado pela Companhia Real do Níger, dos britânicos. A África Oriental estava dividida entre uma companhia alemã, dirigida por Karl Peters, e uma britânica, comandada pelo escocês W. Mackinnon. Cecil Rhodes era o chefe da companhia sul-africana que explorou a atual Zâmbia e o Zimbábue, antes chamados de Rodésia do Norte e do Sul, respectivamente, em homenagem àquele explorador; enquanto o rei Leopoldo II da Bélgica autorizava a Companhia de Katanga a explorar o cobre do Congo Belga.

     Entre novembro de 1884 e fevereiro de 1885, atendendo ao convite do chanceler do I  Reich Alemão, Otto von Bismarck, 12 países com interesse na África encontraram-se em Berlim para a realização de um congresso. O objetivo de Bismarck é que os demais reconhecessem a Alemanha como uma potência com interesses em manter certas regiões africanas como protetorados. Tanto a Alemanha, como a França e a Grã-Bretanha combinaram reconhecimentos mútuos e acertaram os limites das suas respectivas áreas. O congresso de Berlim deu enorme impulso à expansão colonial, sendo complementado posteriormente por acordos bilaterais entre as partes envolvidas, tais como o Convênio Franco-Britânico de 1889-1890, e o Tratado Anglo-Germânico de Heligoland, de 1890.
 

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